(publicado originalmente na Revista Audi de outubro de 2007)
O encontro de duas mídias é um momento de verdade e revelação do qual nasce uma nova forma – Marshall McLuhan
Não há papel mais irrelevante do que de entrevistador, quando o entrevistado é Vik Muniz. A frase de McLuhan, citada pelo próprio artista paulista, descalço, no seu estúdio do Brooklyn, é apenas uma das muitas disparadas ao longo de uma conversa que cobre o planeta (ele deu a volta ao mundo em lua de mel em 2002), ciência, processos de criação com ingredientes como geléia e chocolate, história da arte, perfil das cidades, literatura, natação, imigração e meio ambiente. Vik Muniz não precisa de provocação para falar sobre o que o mantém engajado e é natural suspeitar que ele não sofre de indiferença ou tédio. À entrevistadora, resta a tarefa hercúlea de registrar a torrente de palavras que, apesar do atropelo, não só fazem sentido, como fazem pensar. Para se ter uma medida da importância de Vik Muniz no cenário da arte contemporânea, pode-se examinar seu calendário de compromissos, tomado até 2010 com exposições do próprio trabalho e curadorias em grandes instituições, como o Museu de Arte Moderna de Nova York. Ou pode-se consultar um dos mais importantes personagens da cena editorial de Nova York, impedido de falar on the record porque teria que se refugiar numa caverna do Afeganistão, depois de me dizer, com candura,
LG – Qual foi a primeira viagem importante que você fez?
Eu tinha 17 anos. Fiz a primeira de três viagens anuais de carro sozinho – nem carteira tinha, no primeiro ano. Passava o verão inteiro fora, ia pela estrada até Fortaleza, beirando a costa. Às vezes, voltava pelo interior.
Eu ainda não tinha a menor idéia de que ia ser artista, com um pai garçom e mãe telefonista, você não faz este tipo de plano, nem imagina que alguém vai viver de arte. Sabia apenas que tinha facilidade para desenhar. Com 14 anos, cheguei a estudar desenho acadêmico, com uma bolsa.
Nós morávamos
E o passo seguinte?
Eu tinha uma tia que morava em Chicago e fui para lá com visto de turista. Pensei, aprendo inglês e volto. Acabei ficando quatro anos nos Estados Unidos como ilegal. Antes de completar seis meses em Chicago, vim conhecer Nova York. Foi o fim de semana que já dura 25 anos. Cheguei no meio do feriado do 4 de julho, fui para o Central Park e, já no primeiro dia, entendi que queria morar aqui. Ainda passei mais dois meses em Chicago, e voltei. Arranjei um trabalho de fiscal na rede de supermercados ShopRite, ficava conferindo a data de expiração das mercadorias. Logo arrumei uma namorada e ela me apresentou a umas pessoas que dividiam apartamento no West Village, em Manhattan. Éramos quatro num apartamento pequeno, eu dormia no quarto com um mensageiro (atenção Micheline, é o motoboy)
Logo fui trabalhar numa loja de gravuras (as obras eram péssimas, coisa dos anos 50). A proprietária contratava artistas para restaurar obras e pintar molduras. À noite eu era bartender do Palladium, no auge da fama do clube. Eu ficava postado na frente de um quadro do Basquiat e ganhava gorjetas altissimas. Um dia, um sujeito pediu uma cerveja de 10 dólares e me deu 100 de gorjeta. Nos domingos eu acordava tarde e ia para o Metropolitan ver tudo o que podia. Eu sou metódico, acho que você deve absorver o conhecimento histórico, estudar as origens.
Ficar sozinho pra mim não é problema. Quando se viaja sozinho, tudo mexe muito com você. O viajante é a variável. É preciso estar sempre se ajustando ao novo cenário, ao novo desafio.
Na época em que eu viajava pelo Brasil de carro, levava uma rede, dormia em vilarejos ao ar livre. Não há hotel cinco estrelas que esteja gravado na minha memória como o Sul da Bahia.
Mas a sua formação de artista é marcada pela chegada a Nova York…
Sim, eu precisava de uma mudança radical, um espaço diferente para me encontrar como pessoa. Além disso, a primeira metade da década de 80 foi uma grande época na cidade. Havia uma energia incrível, Nova York estava saindo da quase falência da década de 70. Era mais boêmia. Ninguém falava em “carreira”. A gente saía, bebia, se divertia , criava e esquecia da vida. Ainda havia um clima de rebeldia contra o status quo. Não seria capaz de imaginar como a cidade ia se transformar… e como, de certa forma, eu mudei também.
Com o dinheiro que ganhei como bartender, comecei a comprar livros, lia sem parar. Nos anos em que não tinha visto de permanência legal, viajava dentro da minha cabeça para sobreviver. E comecei a frequentar as galerias do East Village. Eu achavo curiosa, até engracada a cena artística, ainda não sabia que ia me juntar a ela. Ainda estava absorvendo conhecimento sobre os clássicos.
Passei a ter contato com artistas que começavam a ter sucesso. Mas, pensava comigo mesmo, este pessoal não sabe o que eu sei, eles têm um universo limitado e , ainda por cima, não sabem desenhar! Neste período eu tinha uma namorada artista que era meio malvada comigo. Eu era auto-didata e duro. Ela tinha privilégio e educação, frequentou Yale. Ela era sarcástica, achava que eu não tinha autoridade nenhuma para desenhar. Foi me dando uma bronca …
… e veio a motivação para provar que ela estava errada?
Acho que sim. Aluguei um estúdio em Riverdale (ao norte de Manhattan). Saía do trabalho e trabalhava com escultura até a meia-noite. A viagem de volta demorava 1 hora e eu dormia pouco. A escultura tinha a ver com o meu interesse por ciência e o minimalismo dos anos 60. Eu me preocupava com a ruptura necessária do fenômeno físico com a mente. Passei pela fase inicial de me rebelar contra a figura, a representação. Mas isto era uma imaturidade.
Eu sou um grande amante da imagem. A minha relação com a imagem pode se comparar ao medo que um homem sente de ser traído. A imagem me assusta.
Você criava esculturas e não vendia nada?
Tive uma sorte danada de ir a uma festa e conhecer um suíço, Not Vital. Ele foi ao meu estúdio e comprou tudo o que eu tinha produzido, de uma vez. Deve ter pago uns 3 mil dólares, imagine se fosse hoje… O Not me apresentou a uma dupla de curadores que teve grande influência na promoção de artistas do East Village naquela época – 1988 – a Trisha Collins e o Richard Milazzo. E eles me incluíram numa coletiva de artistas na California.
Mas você continuava ilegal…
Pois é, consegui representação de galeria mas o fato de não ter o Green Card complicava a minha vida. Conheci uma outra moça que tinha os papéis
E como foi a migração para a fotografia?
Eu precisava fotografar as esculturas, este foi o ponto de partida. Quando voltei do Brasil, em 1992, nada estava acontecendo para mim aqui. Ainda não tinha galeria mas era representado por um amigo, um sujeito que me enrolou durante uns três anos. Uma vez, troquei uns trabalhos por um pacote de viagem de 15 dias ao Caribe. Eu tinha asma alérgica, tive problemas respiratórios quando criança e queria conquistar a água, aprender a mergulhar. Gastava tudo o que eu ganhava em viagens.
Quando cheguei
O conforto mudou a maneira de viajar?
Sim, e há uma perda aí. Quando você viaja de primeira classe , fica nos bons hotéis, cria-se uma outra distância para o viajante observador. Eu continuo viajando muito mas presto atenção ao ar de fastio e tristeza das pessoas que viajam com conforto. Eu adoro viajar e pergunto, porque eles não estão mais contentes?
No meu caso, eu tenho uma perspectiva da viagem de trabalho – vou a um país estrangeiro, mostrar minha obra. A viagem me faz ver o trabalho através da reação local, me faz reavaliar muita coisa. A viagem de trabalho me alimenta de forma diferente.
Já quando estou viajando para descansar, não penso em levar a câmera. Vou digerindo o que vejo, não faço nem anotação. Eu acho que se aparece uma idéia e você anota, parece que mata a inspiração. É bom esquecer a idéia inicial, as ruins ficam para trás mas garanto que as boas idéias voltam.
LG Você teria tido esta trajetória de artista se tivesse ficado
Teria sido impossível. A idéia de sair de casa para mim é muito importante. A minha trajetória é a do imigrante, o observador. O imigrante está sempre com a perspectiva do lado de fora. É capaz de pertencer ao lugar e de se desassociar dele. Se há uma coisa de que me orgulho é de ter coragem de ser viajante, de ter uma posição ativa em relação ao mundo. Sempre quis pegar a vida pelo cabresto.
Entrevista à Lucia Guimarães
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